5 de junho de 2009

“Podem sair”, crónica de Carlos Fiolhais

Vale a pena ler a seguinte crónica de Carlos Fiolhais.

“Podem sair”

Agora que o tempo de exames está a chegar, a pergunta “Para que servem os exames?” foi colocada pelo Guia do Estudante, distribuído com o Expresso de 29 de Maio, à Doutora Leonor Santos, que é apelidada de "uma das maiores especialistas em avaliação das aprendizagens" e apresentada como coordenadora científica do Mestrado em Desenvolvimento Curricular na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

Que resposta dá essa especialista à pergunta? Num estilo socrático (o do pensador grego, não haja confusões), responde com uma outra pergunta: "Os exames têm por função seriar. Mas até que ponto é que essa seriação permite ter alguma confiança?" Conforme o lead resume, a entrevistada "questiona, ponto por ponto, os pressupostos que sustentam a existência de exames, tal como os conhecemos actualmente". Um estudante que consulte o Guia para obter informações sobre os exames e a melhor maneira de os preparar ficará decerto confundido ao ser informado que eles afinal não servem para nada, uma vez que não se pode confiar nos seus resultados. E, se pouca vontade tinha de estudar, fica logo sem nenhuma. Por seu lado, a política ministerial de desvalorizar os exames encontra, vinda de uma autoridade académica, uma sustentação teórica. Imagino que o referido mestrado seja frequentado por técnicos do Ministério da Educação...

O leitor benévolo poderá pensar que, embora da autoria de uma académica, se trata de uma opinião frívola de fim-de-semana. Pois nem isso. O jornalista informa-nos que a entrevistada "sentiu necessidade de impor a si própria que jamais trabalharia ao domingo. E, ao sétimo dia, aproveita para jogar golfe e tentar melhorar o seu actual handicap de 22 pancadas." Para que serve o handicap? Serve para fornecer uma seriação dos jogadores conforme o seu desempenho. Essa seriação permite medir o desenvolvimento realizado e proporciona aos jogadores metas a atingir. Fiquei a pensar se o progresso desportivo que a referida professora justamente ambiciona não terá alguma semelhança com o progresso escolar que os alunos, em geral, perseguem. E também se o treino que é absolutamente necessário para melhorar no desporto, salvaguardadas as devidas diferenças, não será comparável com o estudo que é indispensável para passar num exame.

O Ministério da Educação, com a maioria do seu pessoal formado por uma cartilha pseudo-pedagógica, dá a ideia de que não sabe para que servem os exames. Não existem verdadeiros exames nos primeiros nove anos de escolaridade uma vez que as chamadas provas de aferição não o são (“aferição” é eduquês puro!). Os exames finais do ensino básico, restritos a duas disciplinas e “bué” de fáceis, podem, mesmo assim, ser substituídos pela via das Novas Oportunidades, com a avaliação limitada a uma “história de vida” e, portanto, de uma banalidade escandalosa. E também os exames no final do secundário podem ser substituídos por provas para maiores de 23 anos de acesso ao ensino superior, onde a fasquia é baixa porque algumas instituições, com a corda na garganta, escancaram as portas com provas que de exame só têm o nome. Que haja alunos que ainda estudem alguma coisa não pode deixar de suscitar a nossa admiração.

A herança que a actual equipa do Ministério da Educação vai deixar é bem pesada. O pior de tudo não foi, porém, a continuada desvalorização do conhecimento, e do esforço que é preciso para o adquirir, na ilusão de disfarçar estatísticas que nos envergonham. Foi o apoucamento dos professores, que causou um dano grave na educação que vai levar anos a sarar. Para degradar o papel dos professores o Ministério não se contentou com a Sr.ª D. Margarida Moreira, o Magalhães e a avaliação “simplex”. Também criou o Manual do Aplicador das provas de aferição, que achincalha o corpo docente de uma maneira que ultrapassa o imaginável. Os professores têm de ler aos alunos: “Podem sair”. Como eu compreendo aqueles a quem apetece aplicar essa frase do Manual à equipa que escreveu e divulgou tal documento!

Público, 5 de Junho de 2009

Encontrada aqui, no De Rerum Natura, pois ainda não há ligação no Público online.

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8 comentários:

** karolina ** disse...

ora nem mais ...

concordo que não devia existir exames de 9º ano

Rui Barqueiro disse...

Carolina, parece-me que não percebeste o texto.

Devia haver exames a sério e em maior número. Por exemplo, eu gostava que houvesse exame a FQ no 9º ano.

Sem exames isto ainda fica pior.

Tu até talvez estudasses e te aplicasses mesmo que não existissem exames, agora a esmagadora maioria dos teus colegas...

André Estêvão disse...

Um texto a dizer que os exames deviam ser mais dificeis e a Carolina a sonhar que era para acabar com os exames... --'
E o burro sou eu?? (Scolari)
Ela diz que só quer o nosso bem, mas ela só se quer é escapar aos exames... :P

** karolina ** disse...

então ...

eu penso na maioria dos alunos ...

mas também sem exames, os profs não sabiam se os alunos só sabiam aquela matéria ou se sabiam toda ( para poder relacionar os conhecimentos )

Mathias disse...

Professor,quando é que sai o quiz de preparação sobre a luz? Obrigado!

Rui Barqueiro disse...

Olá Mathias, já está. Diverte-te ;)

marco rosa 9b n15 disse...

professor ja tive a ver o que sai na prova de frequencia do 9º ano (http://santiagomaior.drealentejo.pt/avaliacao/matriz2008_CFQ_exame_9ano.pdf)

e sai coisas que eu acho que nunca demos no 8º ou 9º ano (penso eu) como a lei de ohm ,circuitos electricos, e acho que mas agora com a lei de ohm :

V é a diferença de potencial elétrico (ou tensão, ou ddp) medida em Volts
R é a resistência elétrica do circuito medida em Ohms
I é a intensidade da corrente elétrica medida em Ampères

e devem por imagens e temos que substituir o valores que aparece na imagem? fui explicito?

Rui Barqueiro disse...

Marco, tu tens que seguir a matriz que está na tua escola. Como os exames são a nível de escola, pode haver matrizes diferentes.

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